n.6 | ano 1 | ago 2022
talvez nós dois tenhamos pensado na mesma pessoa (trechos)
Davi Koteck e Luiza Casanova
1.
Onde você estava quando
Eu me escondi dentro do carro
E fiz uma ligação
Pela última vez?
Onde você estava
Quando eu parei de me morder
Por você?
Onde você estava quando
Me enviou aquela foto
Usando uma camiseta minha
Pra dizer que
Mas você não disse nada
2.
Eu imediatamente voltei
Pro dia em que
Você estava
Desmaiada no canto da cama
E de repente sumiu
Onde você estava quando
Eu queimei todos os dedos da mão
E derrubei todos os cubos de gelo
Na pressa
Você sabia que eu chutei?
1.
No dia em que você
desmaiou no canto da cama
meu corpo também doía
como se fosse preenchido por materiais de construção
pelas prateleiras de uma ferragem.
2.
Você mordendo um cogumelo
na fila do McDonalds da Silva Só
Ok. É noite e todas as luzes parecem com fogos de artifício
no ano novo de Tramandaí
Antes de apagar
Você não me olhava como
Você ia me dizer alguma coisa
mas você não disse nada
Se eu gritar teu nome
até perder o significado
no topo do edifício Luiza
se eu contar até três
em uma língua morta
você vai prestar atenção no trajeto
que minha boca faz?
Você vai imitar a minha língua
enrolada nos dentes
como um cadarço desamarrado?
É engraçado que daqui de cima você
parece com
um boneco miniatura que eu brincava
quando era criança
Se eu gritar teu nome
Até perder a voz
E andar por aí rouca
Como um rádio tosco
Pendurado no pulmão
E se eu seguir a recomendação do dentista
E todas as manhãs
Ao invés de fio dental
Eu usasse os teus cabelos
Que ficaram brancos sem a minha permissão
Tu me ouve agora?
Se no topo do edifício Davi
Eu fizesse uma concha com as duas mãos
Ao redor da boca
E vomitasse a bola do meu novo fio dental
Até eles virarem cabos de luz
Eu vou descer todas as escadas correndo e no final da minha maratona
Sabia que eu fui campeã nos cem metros rasos uma vez?
*talvez nós dois tenhamos pensado na mesma pessoa vai ser publicado pela editora 7Letras
Ùrsula Zufrieden
Luiza Casanova vive em Santa Maria (RS). Publicou a novela Tempo embalado para apodrecer (editora cartoneira Maria Papelão) e participou da antologia Qualquer ontem (editora bestiário). Tem contos e poemas publicados na Ruído manifesto, Mallarmargens e outros. Atualmente é professora de literatura.
Davi Koteck nasceu em Porto Alegre em 1995. É autor de O que acontece no escuro (Editora Taverna) e todo abismo é navegável a barquinhos de papel (Editora 7Letras)
