n.6 | ano 1 | ago 2022

Flores nas mãos de carrascos (trecho)

Jalusa Endler

Eu não sei rezar mãezinha do céu
Só sei calar, chorar e de vez em quando amar
Azul e branco, meu manto é teu véu
Mãezinha, eu não quero conhecer o céu: cruel, o gosto  de fel.

O meu avô sempre dizia que em terra contestada o silêncio era vermelho. Naquela noite eu entendi.

Choravam alto as maria rezadeira ao redor do pequeno caixão cor de pinheiro, fechado no centro da pequena sala, rodiado pelo brilho de vela acesa. Sob a luz cheia da lua, a casa feita da mesma madeira, formava a minha família Sousa. Meu pai, seu Zé, zelava com o olhar eu e minhas seis irmã, chamadas de Maria, todas dos cabelo amarronzado . As menina aguavam tanto que manchava o chão de cera, cheio de fresta e gemido de dor. Eu só queria sabê se tinha sido uma menina .

O pai nem olhava.

Minha mãe, dona Josefa, arrebentada, derramô umas lágrima, que teimava em pará na bochecha vermelha do rosto apertado pela perda de mais um nascido. Espremia tanto o rosário de colar de pérola com os dedinho mirradinho, que dava dó. Aos pouco iam passando dedo por dedo e os lábio não parava de mexê. Não dava pra entendê nada.  O cheiro de vela queimada era muito forte, mas elas alumiava como noite de luz a clariá tudo em volta, daquele desolado lugar. A porta da frente aberta amenizava um pouco a catinga de vela derretida, ao tocá o pires rachado em cima da mesinha de pau, no altar num cantinho esquerdo. Minhas irmã não paravam de chorá um só segundo, junto das rezadeira. Era de uma belezura o ritual de passage com os canto, os eco e os medo.

Mais pra frente dava pra vê o descampado de verde-árvore rodiada na imensidão do terreno. Onde a vista não alcançava o fim. Parecia rio de araucária. Candelabro de pinhão. Árvore mãe de todas as mãe, onde no seu topo se pode avistá o anil-céu de brigadeiro pertinho da santa–madre-Deus. Tronco maior que vinte braço ao seu redor, num abraço de nada, a luga’algum. Casa morada das gralha-azul.

A mãe não olhava pro caixão, nem eu. Acho que ela queria tá limpando o terreno com piaçava, dando o milho pras galinha, enchendo o coxo pras criação; imaginando os bichinho tudo amarelo como a beijá um ente querido. Será que’a vida acontece despois de mais um ocorrido? Vieram todos pra consolá o pai e a mãe. Até a madrinha veio trazendo uma rosa branca e rosarinho pra entrelaçá nos dedinho do anjo-pagão. Quando abriram a tampa eu fechei bem meu olho, mas o nariz não deu, que cheiro forte. A tristeza fede!  Naquela hora o tempo parô, a reza acabô e dois homem levaram o caixão. Achei que o pai ia fazê isso,  mas ele nem se levantô do toco de lenha.

Lembrei  das vez que’a mãe passô mal em casa e logo gritavam pra nós ir pro mato, e ficá por lá até o entardecê e só despois voltá pra casa. O pai vinha com uma caxinha e não deixava a gente preguntá sobre isso. Ela sumia como passarinho a assustá com estilingue. Lá detrás do terreno levavam o caxãozinho e nós ficava esperando em casa, pra despois voltá pro lugar. Hora do chá de marcela pra mãe, com bastante mel. A caneca ficava do lado da cama até enchê de formiga e esfriá. E todo mundo fingia sono despois disso. Hoje vamo fazê igual, eu sei. Já botei pra fervê a água pro chá da mãe. Já sei até que vô sonhá que era mais uma menina. Dei o nome de Maria das Graça

Jalusa Endler

Jalusa Endler de Sousa é natural de Irineopolis, Planalto Norte de Santa Catarina e muito cedo veio morar em Canoinhas, também em Santa Catarina.  Duas cidades palco da Guerra do Contestado. Ela é professora de Língua Portuguesa e Literatura em escola pública faz 22 anos e está no universo da escrita com o desafio de relatar o conflito armado no Sertão do seu estado com uma linguagem peculiar dos caboclos.

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