n.6 | ano 1 | ago 2022
Camila Maccari
Entrevista
…quando bate a insegurança, os amigos entram como uma boa perspectiva da qualidade da coisa, e daí também que racionalmente a gente aprende que fazer do jeito possível acaba, no fim das contas, sendo melhor que não fazer e vai lá e faz mesmo assim.
1. A construção da voz narrativa é o que primeiro chama a atenção no teu livro Dias de se fazer silêncio. Quais foram os maiores desafios de criar uma narradora criança?
Acho que fazer isso mesmo correndo o risco de cair em um lugar clichê, ou num narrador que não convence, que parece mais um exercício de escrita do que qualquer outra coisa, como se a criança fosse, quase, um objeto inanimado que ganha voz. Enfim, sabendo que podia dar certo ou não. O livro acompanha a perspectiva de Maria, uma criança de onze anos que passa por uma experiência extrema em uma casa que não dá o suporte que ela precisa para encarar essa jornada, justamente porque é uma jornada pesada pra todo mundo, tem uma criança morrendo ali. Mas pensei muito na Maria antes de escrevê-la, foi um processo criativo onde eu ativamente coloquei muita coisa de lado, desaprendi muito e me deixei guiar pelo sentimento, ficar imersa na perspectiva dela naquela história que criei pra ela. Foi preciso, racionalmente, sair um pouco do racional: uma criança que aprende a lidar com os sentimentos não filtra as coisas do mesmo jeito que a gente faz, e foi isso que tentei trazer pro livro. Um caos sem filtro das emoções de uma criança que, no fim das contas, geraram identificação justamente porque escancara que a dicotomia não faz parte da vida. E aí que as frases longas e o ritmo intenso vieram como uma solução natural para acompanhar bem de perto mesmo o caos em que Maria estava mergulhada. E, antes de qualquer coisa, é assim que eu gosto de fazer, numa velocidade que não permitia que eu me separasse da personagem.
2. Vamos falar um pouco sobre a escolha do cenário do romance: por que localizar a história no interior gaúcho? Ele fez ou faz parte da tua vida? Como foi visitar ou revisitar esse cenário de maneira a organizar ele dentro da tua narrativa?
É localizado no interior de uma cidade do interior, um cenário que tem um ritmo próprio, que é amplo e livre, que não somaria sufoco à história que já é, por si só, intensa. E também porque eu queria que o meu primeiro trabalho literário me levasse de volta pra casa, de alguma forma, remetesse a um cenário que fez, sim, parte da minha infância. É uma colcha de retalhos afetiva: a casa geminada inspirada na casa de vizinhos de meus avós, a parede de árvores, no quintal de outros vizinhos, a jabuticabeira, no xodó do meu avô. Eu até tentei revisitar esses lugares, ir nesses espaços físicos, mas vi que não funcionava, que a memória que eu tinha de cada um deles era muito maior do que eles hoje em dia, então precisava resgatá-los diretamente da minha memória. E foi isso que fiz. Deixei eles no seu lugar, a minha infância, e me inspirei num saudosismo que, mais de lugares, é de um tempo. E tem muita coisa inventada, evidentemente, mas inventado a partir de um sentimento que eu reconheço, transferindo pra ambientação uma grande coisa que é apenas a perspectiva de quem vê.
3. Sabemos que tu está trabalhando num novo livro. Pode nos contar um pouco sobre o teu processo criativo? Teve diferenças de processo entre o teu primeiro livro e este?
Eu achei que teria mais diferença, mas a diferença é com a vida que eu vivo agora da vida que eu vivia há cinco anos. Antes eu podia escrever depois das aulas do mestrado e de trabalhar, hoje em dia eu não tenho esse tempo, tenho uma filha, não tenho como virar noite, nunca posso dormir até mais tarde, não tenho como engatar a escrita com álcool, o depois sempre vem. Mas, de resto, é do mesmo jeito, no mesmo fluxo e na mesma saturação, ou vai ou racha, o trabalho tendo que se resolver em pouco tempo, antes que eu desista de tudo. E não que a história venha desse jeito, eu vivo com essa personagem há pelo menos quatro anos, vivi uma gravidez, uma pandemia, começo de um relacionamento, um burnout, os primeiros dois anos da minha filha, e essa personagem esteve aí, marinando. Daí que decidi dar um tempo de todo o resto, tirar um mês bem focado, e fazer só isso. Quando eu comecei esse em que estou trabalhando, eu não sabia nem como seria a estrutura dele, só sabia que eu sabia a história e que o tempo que eu tinha disponível tinha chegado. E aí foi, comecei a escrever na tentativa, mega frustrada porque as primeiras vinte páginas mudaram de perspectiva três vezes, irritadíssima com o exercício que eu tava fazendo até entender como construiria esse livro quando, na verdade, minha intenção não era a de fazer exercício nenhum, né. E acho que o que mudou também é a minha maturidade e perspectiva sobre a coisa toda. O Dias de se fazer silêncio eu escrevi, coloquei o ponto final, e foi isso. Esse novo trabalho começou comigo sabendo que o retrabalho seria maior que trabalho criativo em si, que o primeiro ponto final não seria um ponto final de fato e aí aceitei isso e bola pra frente – embora, deva ser honesta, o que eu gosto mesmo é daquela edição que acontece ainda durante a escrita e gosto mais ainda de decidir que o negócio terminou e não ter que ficar encarando ele quando já tô entojada.
4. Dias de se fazer silêncio é teu primeiro livro e já foi premiado com um Açorianos. O que tu diria para as escritoras iniciantes inseguras desse Brasil?
Zero moral pra falar de coisa nenhuma, mas diria: tenham amigos que costumem dar esse mesmo rolê. Eu sou diariamente o combo de insegura porque o trabalho não está bom o suficiente + sofredora porque não está o melhor trabalho do mundo. Nunca vai estar, tem um milhão de pessoas muito melhores que eu ali fora. Não dá pra ser a melhor em tudo, mas dá pra fazer, mesmo sem aceitar essa condição que nos coloca no nosso ~devido lugar. E aí ocupar esse lugar com tudo o que se tem. Tô falando mais pra mim que pra qualquer outra pessoa, na verdade, tô em crise também, cada trabalho novo é uma crise nova, e pior que eu já nem lembro da crise com o primeiro trabalho, meio como dizem sobre ter mais que um filho mesmo, a gente esquece certas coisas pra poder fazer de novo. Daí que quando bate a insegurança, os amigos entram como uma boa perspectiva da qualidade da coisa, e daí também que racionalmente a gente aprende que fazer do jeito possível acaba, no fim das contas, sendo melhor que não fazer e vai lá e faz mesmo assim.
Camila Maccari
Camila Maccari nasceu em Sarandi, em 1992 e atualmente vive em Porto Alegre. Seu romance de estreia, Dias de se fazer silêncio, ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura.
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